FILOSOFIA

SER FELIZ OU TER RAZÃO? voltaire quase responde...  (FILOSOFIA) escrito em segunda 26 maio 2008 16:29

   Li a algum tempo atrás um conto de voltaire que fez nascer em mim um desejo tímido de cada dia ser mais ignorante... ao contrário da lei natural e inevitável de acumular conhecimento e sabedoria.... encontrei este livro hj... Romances e contos completos de voltaire, editora arcádia limitada.

este livro é velhinhoooo..

aí vai:

 

                                 HISTÓRIA DE UM BOM BRÂMANE

                                 Tradução de João Paulo Monteiro

 

 

 

                                                 Titulo original: Histoire d´un bon bramin

 

 

     Durante uma das minhas viagens conheci um velho brâmane, homem sensato e inteligente e muito sábio; além disso era rico, e portanto ainda mais sábio: pois como não lhe faltava nada, não tinha a necessidade de enganar ninguém. Governava-lhe a casa, e muito bem, três lindas mulheres, cuja preocupação fundamental era agradar-lhe; e ele, quando não estava a divertir-se cm as esposas, entretinha-se a filosofar.

     Perto da linda casa em que vivia, rodeada por deliciosos jardins, morava uma velha indiana, beata imbecil e bastante pobre.

     Um dia disse-me o brâmane: "Antes queria não ter nascido." Perguntei-lhe porquê. Respondeu ele: "Há quarenta anos que estudo, e foram quarenta anos perdidos; dou lições aos outros e não sei nada: esta situação faz surgir na minha alma tanta humilhação e tristeza que a vida se me está a tornar insuportável. Nasci e vivi no tempo, e não sei o que é tempo; estou num ponto entre duas eternidades, como dizem os nosso sábios, e não faço idéia d que possa ser a eternidade. Sou composto por matéria; penso, e nunca consegui averiguar qual a causa a que é devido o pensamento; ignoro se o meu entendimento se limita a ser mais uma das minhas faculdades, como andar e digerir, e se penso com a cabeça tal qual como agarro com as mãos.e não é só o princípio do meu pensamento que desconheço, nada sei tampouco do princípio dos meus movimentos: não sei porque existo. E contudo todos os dias me fazem perguntas sobre estes assuntos: tenho de responder: não encontro nada de valioso a dizer; falo muito e depois de ter falado fico confuso e com vergonha de mim próprio.

     E ainda é pior quando me perguntam se Brama dói criando por Visnu ou se ambos são eternos. Deus sabe que p ignoro totalmente, e que isso se nota bem nas minhas respostas. “ Ah reverendo padre, vêm-me dizer, ensinais-nos como é que o mal inunda a Terra.” Fico tão atrapalhado como aqueles que me fazem essa pergunta?: às vezes digo-lhes que vai tudo melhor possível; mas aqueles que ficaram arruinados ou mutilados na guerra não acreditam, e eu também não; vou meter-me em casa, amargurado com a minha curiosidade e minha ignorância. Leio os nossos velhos livros, mas eles nada mais fazem se não aumentar as trevas em que me encontro. Procuro falar com os meus confrades: uns responde-me que é preciso gozar a vida e não dar importância aos homens; outros estão convencidos de que sabem alguma coisa e perdem-se em idéias estranhas; tudo concorre para acentuar os sentimentos dolorosos que me atormentam. Às vezes chego quase a entregar-me ao desespero, quando penso que todos os meus estudos não me fazem saber de onde venho, o que sou, para onde vou ou o que virei a ser.”

     Senti uma imensa piedade da situação em que aquele bom homem se encontrava: não era possível ser-se mais sensato, nem esta mais de boa fé do que ele. Concluí que quanto mais luzes havia no seu entendimento e mais sensibilidade havia no seu coração mais infeliz ele se sentia.

     Nesse mesmo dia encontre a velha que morava perto dele: perguntei-lhe se ela alguma vez tinha se sentido infeliz por não saber qual era a natureza da sua alma. Nem sequer chegou a perceber a minha pergunta: nunca tinha refletido, durante um momentoso que fosse, sobre os problemas que atormentavam o brâmane; acreditava de todo o coração nas metamorfoses de Visnu, e para se considerar a mulher mais feliz deste mundo bastava-lhe poder lavar- se de vez em quando com água do Ganges.

     Impressionado com a felicidade da pobre criatura, voltei para junto do meu filósofo e disse-lhe: “não tendes vergonha da infelicidade que sentis, quando existe à vossa porta um velho autômato que não pensa em nada e vive satisfeito? -Tendes razão, respondeu ele. Penso muitas vezes que certamente seria feliz se fosse tão tolo como minha vizinha, e contudo não seria capaz de aceitar uma felicidade assim.”

     Fiquei mais impressionado com esta resposta do meu brâmane do que com tudo o resto; interroguei-me a mim mesmo, e verifiquei que de fato não gostaria de ser felix se para isso fosse necessário ser imbecil.

     Pus o problema a alguns filósofos, que se declararam partidários da minha opinião. “há todavia, dizia eu, uma tremenda contradição nessa maneira de pensar: porque no fim de contas qual é o problema? Ser feliz. Que importa ser inteligente ou tolo? Mais ainda: aqueles que estão satisfeitos com sua sorte tem a certeza de estar satisfeitos; aqueles que raciocinam não estão assim tão certos de infelicidade, por pouco que seja, devemos procurar não o ter.” Toda a gente concordou comigo, mas mesmo assim não consegui encontrar ninguém que quisesse fazer o negócio de se tornar imbecil para ser feliz. Concluí daí que, se para nós a felicidade é importante, a razão ainda o é mais.

     Mas depois de pensar muito parece que é uma grande insensatez preferir a razão à felicidade. Como se poderá então explicar esta contradição? Como todas as outras È um assunto que se prestas a muitas especulações.

permalink