Salvador
Dalí,
Construção mole com
feijões cozidos.
Premonição da
guerra civil, 1936.
Philadelphia museum of
art
O
SURREALISMO
André
Breton
Manifesto do
Surrealismo (1924)
Surrealismo, s.m.: Automatismo psíquico puro por meio do
qual nos propomos a exprimir, seja verbalmente,s seja por escrito,
seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do pensamento.
Ditado pelo pensamento, na ausência de qualquer controle
exercido pela razão, fora de qualquer
preocupação estética ou moral.
(...)
O surrealismo repousa na crença na realidade superior de
certas formas de associações negligenciadas
até o
presente, na onipotência do sonho, no jogo desinteressado do pensamento .
ele tende a aniquilar definitivamente todos os outros mecanismos
psíquicos e a substituí-los na
resolução dos principais problemas da
vida(...)
Mande
trazer o que for necessário para escrever, depois de
acomodar-se no lugar que lhe parece mais favorável à
concentração do seu espírito em si mesmo.
Coloque-se no estado mais passivo receptivo, que puder (...)
escreva rapidamente, sem um tema preestabelecido, tão
rápido que não possa refrear-se e que não
tenha a tentação de reler. A primeira frase
virá sozinha. E eis que surgem personagens de maneiras um
pouco disparadas (...) assim, munidos de um pequeno
numero de
características físicas e morais, esses seres, que na
realidade lhe devem
tão pouco, não se afastarão mais de uma certa
linha de conduta, da qual você não deve se
ocupar.
Resultará daí um
enredo mais ou menos elaborado na aparência, capaz de
justificar ponto por ponto um final comovente ou
tranqüilizante, com o qual não deve se
importar.
CONTRA O
SURREALISMO
Hans
Sedlmayr
Perda do
centro, V (1948)
O surrealismo jogou fora as mascaras. Ultraja abertamente deus e o
homem, os mortos e os vivos, a beleza e a moral, a estrutura
e a forma, a
razão e a arte: “ a arte é uma
bobagem”(...) acredita possuir um ponto de vista “com
base no qual vida e morte realidade e imaginação
comunicabilidade e incomunicabilidade, ‘sobre’ e
‘sob’ não devem mais ser percebidos como opostos
e contraditórios”. Essa definição
aparentemente científica, nada mais é que a
definição do caos. Nem mesmo o surrealismo nega tal
coisa; reconhece abertamente, aliás que busca a
“sistematização da confusão”(S.
Dali) e a desorganização. “ não existe
uma ordem revolucionária, existe apenas desordem e
loucura”. Anuncia com satisfação que “um
novo vício acabou de nascer e com ele se oferece ao homem
uma outra ilusão: o surrealismo, o filho do frenesi e da
obscuridade” (Aragon).(...) o surgimento das suas vanguardas
é o sinal
potente que serve para indicar a marcha, já avançada,
das forças irracionais, ou melhor, subracionais. Quem lhes
abre as portas são nossos conteporâneos ingênuos
(ou complicados) quem vêem no mal compreendido nome de
surrealismo – que na realidade é sub-realismo- as
promessas de serem elevados acima da vida banal de todo dia(...)
não se deve
considerar tal fenômeno como uma bagatela(...) o surrealismo
é, em substância, o último temeroso passo para o
esfacelamento
já experimentado por Nietzsche quando, em 1881, escreveu o
seu fragmento “O homem louco”: “ Não
marchamos talvez para o precipício? Para trás, de
lado, adiante, de todos os lados? Ainda existem o
‘sobre’ e o ’sob’? não
estaríamos, talvez, vagando através de um nada
infinito? Não sentimos no rosto o hálito do frio
espaço? Por acaso ele naose fez ainda mais
frio?”